quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Um Gnóstico é Aquele Que....




Amigos:

Estou reproduzindo um trecho que esta no meu livro “Atualidade do Cristianismo Gnóstico” que na pag. 33 que comenta o dito de Teodoto acima. 

Coloquei ontem essa trecho na minha LT do FB o que deu a oportunidade de um dialogo com um amigo que reproduzo também mais abaixo. 

Esse texto de Teodoto nos evoca a carta I de Pedro no evangelho que diz: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional não falsificado para que por ele vades crescendo.”

Passemos então a comentar o texto de Teodoto:

Um gnóstico é aquele que... chegou a compreender, 

Isto é, retomou a consciência de, lembrou-se.
Como na parábola, o Filho Pródigo (Lc. 15, 11-32), que era o filho de um rei, tinha deixado seu reino de origem e estava no momento sob o jugo de um feitor sendo seu zelador de porcos. E assim ficou por muito tempo, dissipando suas energias conscienciais. Até que um dia ele se lembrou, isto é retomou a consciência de... De que?

[de] quem éramos. 

Éramos um ser humano original. Éramos um ser em eterna evolução no que é chamado fartamente nos evangelhos de A Casa do Pai ou o Reino de Deus.

e no que nos tornamos? 

Tornamo-nos no homem mortal preso, como é dito no budismo, na roda de Samsara na qual nascer, crescer, morrer, renascer..., é dor. A roda desse mundo, que não é a Casa do Pai.

Onde estávamos? 

Estávamos, como dissemos, na Casa do Pai. O Filho Pródigo não é nascido e criado no reino do feitor. O filho Pródigo tem uma origem, e essa origem é a Casa do Pai.

E para onde nos precipitamos? 

Para esse mundo, que é um termo muito usado em várias partes do evangelho. 'Meu Reino não é desse mundo', o nosso atual mundo, o nosso atual estado consciencial que gera, como resultante, esse mundo em que vivemos.

De que estamos sendo libertos?

Nós somos prisioneiros. Nós somos completamente prisioneiros! Toda a questão verdadeiramente relig-iosa, verdadeiramente Sagrada, não é uma questão de conservação da prisão, não é uma questão de melhoria da condição do preso - se bem que isso vem em acréscimo a todo o exercício religioso elevado - como diz o Sermão do Monte.

A questão fundamental da relig-ião, e muito especificamente da essência do cristianismo, é a questão da libertação desse mundo e a volta para o outro mundo, o mundo original, a Casa do Pai, como na parábola do Filho Pródigo.

Portanto, estamos sendo libertos do pecado original.

Pecado é uma palavra tão distorcida por esses dois mil anos que hesitamos em usá-la. Mas temos que usá-la, porque o seu sentido original é muito interessante e profundo. A palavra pecado quando originalmente usada nos textos evangélicos e apócrifos era a palavra grega “harmatia”. Essa palavra grega, que se transformou na palavra pecado e no sentido distorcido que agora traz, era uma palavra muito significativa para descrever de que estamos sendo libertos. Estamos sendo libertos de um erro original. E que erro foi esse? Esse erro foi a harmatia que era um termo usado para designar quando um arqueiro errava o alvo. Portanto harmatia é erro de alvo, perda de objetivo, desvio de um objetivo, de uma evolução.

Desviamo-nos de um alvo e assim pecamos, nesse sentido, de uma forma original, fundamental. E a partir desse pecado original, e por causa dele, nos aprisionamos nesse mundo, nesse estado de consciência. E sendo assim deveremos, primeiro que tudo, ser libertos do pecado original, isto é, do desvio de alvo que originalmente a consciência empreendeu, para que possamos retornar ao nosso mundo de origem.

Pecado, portanto, não é essencialmente uma deficiência de atitude, mas uma deficiência de estrutura, de fundamento.

O que é nascimento? 

Nascimento é a entrada na vida mortal do Filho do Homem ou, como diz Paulo, do Filho do Pecado.

E o que é renascimento? 

É a ressurreição consciencial do Filho de Deus. É o objetivo final que o cristianismo veio empreender para esses tempos.

O cristianismo (acima de qualquer denominação institucional) é o libertador da alma do homem, aprisionada nesse mundo por força de um estado consciencial de desvio de objetivo - a harmatia, o pecado original - e, desse erro, que ocasionou o estado de consciência e consequentemente o estado de mundo da morte, seremos resgatados pelo renascimento ou ressurreição, em nós, do estado de consciência original, anterior ao erro do alvo.

Isso, em resumo, é o que esse significativo texto de Teodoto nos diz, desde o ano 150 para nossa referência atual. 

Reiterando mais uma vez: o cristianismo do princípio é um cristianismo vivo, eterno, atual e está sendo redescoberto em toda a sua plenitude.

Segue-se o diálogo sobre esse texto que tive com um amigo do FB:

João Cláudio: Só que o que os gnósticos sempre disseram Paulo foi que o 'pecado original' não foi do Homem ( Antropos ) , simbolizado por Adão e Eva, mas sim da própria Divindade, ou um aspecto Seu , Sofia ... foi Sofia quem 'caiu' , e por causa disso , o Demiurgo veio a existir e , através dele e de seus asceclas , os arcontes , esse mundo decaído foi criado ... esse foi o 'erro do alvo ' original ... esse mundo em que vivemos , essa prisão , a 'Matrix' é o resultado.E é disso que temos que ser libertos 

Paulo Azambuja:  Oi João. Num contexto tão rico como o gnosticismo sempre houve variantes de interpretação em alguns pontos (não na essência mas em alguns aspectos também importantes). Assim também ser gnóstico é pensar e sentir a gnósis dentro de si e Hoje. Sendo assim mesmo que os gnósticos anteriormente sempre dissessem algo, o que, como disse, não foi o caso porque muitas vezes não há essa unanimidade; hoje, na "atualidade do cristianismo gnóstico" em cada um de nós podemos verificar DENTRO alguns aspectos e o que assim for percebido compartilha-lo. No entender do texto que coloquei (e isso traz implicações profundas sobre a responsabilidade-alma de cada um de nós e no entendimento do "processo de volta") o ser humano original não é um fantoche passivo perante a MANIFESTAÇÃO mas ao contrário é co-responsável por seu desdobramento e também pelos desvios que ajudou a criar sobre esses desdobramentos. Nesse sentido o ser humano original - de vontade própria - aceitou cair junto. (Há outra humanidade original que não aceitou cair ). Em consequência disso é a própria alma humana que tem que aceitar a volta - também de vontade própria (em auto endura - entrega). Na parábola do filho pródigo, acredito que esteja bem clara a sua responsabilidade em todo o processo.

João Cláudio:  Eu discordo, Paulo. Acho que esse não é o mito gnóstico original , acho que essa é a visão ortodoxa. Mas , tudo bem .Eu entendo que nós temos que ser ativos no processo de libertação, e que depois da Queda de Sofia e da criação desse mundo, nós contribuímos muito para a atual situação de caos e sofrimento , através das nossas ações inconscientes e mecânicas . Mas , esse mundo já estava corrompido e imperfeito muito antes de qualquer um de nós 'descermos' pra cá... o sofrimento já existia entre os animais , por exemplo ( sem falar em outros seres mais sutis , como elementais , anjos , demônios , deuses , Aeons e Arcontes ).Eu não me lembro de ter aceitado cair junto com ninguém... enfim, já que estamos aqui , agora é vermos como saímos.

Paulo Azambuja: Oi João. É muito interessante pois esse nosso diálogo aqui reproduz de alguma forma as correntes gnósticas chamadas dualistas radicais e as chamadas dualistas mitigadas. É assim mesmo. Uma vez quando ainda bem mais jovem recém participava de um grupo gnóstico o assunto "queda" estava sempre na ordem do dia do tipo "por que o homem caiu?" "por que deus deixou?" "Se voltar vai poder cair de novo?" e especulações clássicas desse tipo. Numa palestra que assisti ministrada por um senhor mais velho e com uma referência bem mais profunda do gnosticismo ele passou a ser açodado por uma torrente de aflitos questionadores sobre esse teor. No inicio chegou a tentar elaborar algumas idéias em resposta mas chegou em um determinado momento encerrou o assunto dizendo: " Olha eu não sei porque nem como caiu, não estava lá, mas o que eu sei hoje aqui agora com toda a certeza é que cair caiu! Então vamos continuar a palestra desse ponto e verificar como resolver essa bagunça.

João Cláudio: Bem, sob o ponto de visto teórico e histórico , eu continuo discordando, Paulo. Hoje em dia parece haver um consenso entre os acadêmicos que estudam o 'Gnosticismo' ( até mesmo esse termos, como você sabe, vem sendo questionado , já que ele foi um conceito desenvolvido no século 18, se não me engano ) afirmando que os Gnósticos propriamente ditos eram os chamados Sethianos ou Barbelognósticos, e que foi a partir deles que o mito fundamental dos gnósticos foi descrito, a versão alternativa do Gênesis e sua releitura, como descritos no Livro Secreto de João , a Realidade dos Arcontes , a Revelação de Adão, e outros textos Sethianos. Os chamados 'dualistas mitigados' eram, basicamente , os Valentinianos , que eram explicitamente cristãos (os Sethianos eram judeus platônicos) e tinham uma visão menos negativa do Demiurgo e do mundo (cosmos) , mas mesmos eles seguiam o 'script' original da queda delineado pelos Sethianos , basicamente o 'drama de Sofia'. Talvez os estudos sobre os gnósticos tenham avançado desde a sua juventude, Paulo ...mas , como você bem colocou , a questão para nós que estamos aqui e agora nesse mundo decaído é , como subir de volta ...? Mito , e os gnósticos mais que todos eu acho, servem para dar asas às nossas almas, expandir as nossas mentes e estimular nossas imaginações , e não nos prender em mais dogmas... escreva o seu próprio evangelho, viva o seu próprio mito!

Paulo Azambuja: O que mais espero que tenha acontecido não é que meus estudos gnósticos tenham avançado desde minha juventude mas sim que agora, já na 3a fase da vida, tendam a ser transcendidos. Porque penso que os estudos, inclusive os gnósticos, são tão somente setas (importantes) de "siga em frente". O gnosticismo não é uma ciência e menos ainda uma ciência exata. Tenho tido oportunidade de me situar em relação ao que entendo e principalmente ao que pretendo praticar em relação a gnósis - e não foi outro o meu objetivo ao empreende-lo - nos artigos que redijo, traduzo ou seleciono no meu blog. Dentre esses o mais acessado é o "O Segredo do Sagrado". Na segunda parte dessa referida postagem coloco um texto que fiz como apresentação para o lançamento do livro "Atualidade do Cristianismo Gnóstico" realmente acho que ali situo bem o meu pensamento e realço aqui quando falo das três formas (ou mesmo gradações) em que a gnósis hoje em dia esta se apresentando em mais ampla divulgação. 

O primeiro nível ao qual me refiro como "gnose-Dan-Brown", um segundo nível ao que me refiro como "a gnose acadêmica" : ' É a gnose acadêmica que nos permite hoje afirmar de forma incontestavelmente objetiva que o cristianismo gnóstico não é uma elaboração tardia entremeada de retalhos, feita a partir de idéias helenistas e de outras origens “pagãs’ acrescentadas posteriormente ao pré existente “verdadeiro cristianismo”, mas sim uma prática cristã autêntica ocorrida a um significativo número de pessoas desde os primeiros momentos da manifestação crística do primeiro século concomitante às formações ortodoxas... No entanto a gnose acadêmica se limita a elaborar estudos e conclusões dentro dos cânones reducionistas da prática científica. Não tem amplitude, por exemplo, para considerar como causa de uma autêntica manifestação gnóstica uma revelação subjetiva intensa e transformadora. Não cabe aqui nada de transcendente!' por terceiro me refiro a gnose espiritual sagrada: 'E essa Gnose, como a divulgamos nos fundamentos desse livro, se refere à determinação do espaço do Divino, do Sagrado, assim como ao estado e ao papel de nossa limitada e exaurida consciência egóica atual quando enceta o processo de re-lig-ação ao seu estado original.'

João Cláudio: Só um adendo : Em termos da 'Gnose Acadêmica ' , como você chama muito apropiadamente esse estudo acadêmico do 'Gnosticismo' Paulo , eu gostaria de citar nessa nossa conversa essa outra excelente entrevista , como o Professor Birger Pearson , que eu pessoalmente gosto ainda mais do que a do Prof. Brakke . http://www.youtube.com/watch?v=V_PYKZemDCI

Mas , concordo com você que o mais importante sem dúvida é a experiência da Gnose Sagrada , e essa é única para cada indivíduo , embora compartilhando uma certa visão de mundo em comum ( porque , como você sabe , quando tudo é 'gnose' , nada é ...) .Mas , é como na música , um mesmo tema pode ser interpretado com quase infinitas variações , embora nós saibamos reconhecer qual música está tocando ...pra quem tem ouvios para ouvir , claro ...só mais uma coisa : Quem acrescentou os mitos pagãos à estória de Jesus foram justamente os ortodoxos... mas, essa já é outra conversa.  Um prazer e uma honra conversar com você, Paulo. Abraço.

Paulo Azambuja: Pois é João que bom seria se todo o diálogo fosse do teor do que nós estamos empreendendo. Certamente com todo o 'direito divino' sigamos em frente com a nossa gnósis. Lá no centro dessa espiral esta certamente o SAGRADO esperando-nos para festejar nosso "retorno à Casa do Pai". 
Um abraço


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Uma síntese gráfica para os fundamentos ontológicos do cristianismo gnóstico


Amigos:
Entre os buscadores, interessados e participantes de ideias e movimentos relativos à espiritualidade apresenta-se uma grande babel ontológica na qual termos como: “Deus” “Nada”, “transcendência”, “luz”, “amor”.... são usados, tanto para afirma-los quanto para negá-los, com semânticas completamente diferentes e em estruturas de percepção particulares e normalmente díspares.

Não desejando cair, e possivelmente assim me perder e confundir o leitor, num texto longo “filosófico” ou “teológico” sobre essa questão, me propus simplesmente a estabelecer um esquema gráfico e sintético no qual cada um desses principais termos-conceitos ocupa sua posição, representando seu status ontológico nos fundamentos de nossa percepção da gnósis cristã e, assim sendo, os usaremos sempre obedecendo esse padrão de referência o que mostrará sem ambiguidades o que entendemos com cada um deles. 

Certamente outras estruturas de crença poderiam ser representadas reposicionando, acrescentado e excluindo algumas das estruturas e termos constantes no nosso gráfico e assim poderíamos mais fácil e objetivamente verificar as similaridades e diferenças entre nossos fundamentos. 

O "reino do pai tem muitas moradas" e que assim abrigam muitas e diversas formas de consciência que, sendo muitas, são certamente diferentes entre si. 

Portanto, não é tudo a mesma coisa. 


Eis os gráficos:


Paulo Azambuja

sábado, 4 de janeiro de 2014

ALÉM DA CRENÇA: UMA ENTREVISTA COM ELAINE PAGELS

Amigos

Originalmente fiz essa tradução e publiquei na minha Linha de Tempo do FB. Como este texto foi bastante visto e comentado trago-o para o blog junto com alguns desses comentários

Traduzi e divulgo esse texto pois considero muito importante que as pessoas que se interessam pelos fatos históricos, arqueológicos e de religião comparada ("Relig-ião" no seu verdadeiro sentido, não institucional) tenham acesso a cientistas realmente qualificados ao invés de palpiteiros de ocasião com seus best sellers sobre origens características e existência da “gnósis”, “jesus” ... 

ALÉM DA CRENÇA: UMA ENTREVISTA COM ELAINE PAGELS

Dra Elaine Pagels
"Pagels é Professora de religião na Universidade de Princeton, e Ph.D. pela Universidade de Harvard.

Em Harvard ela fez parte de um grupo que estudou os rolos de Nag Hammadi. Dessa experiência resultou a base para o seu primeiro livro Os Evangelhos Gnósticos (The Gnostic Gospels,1979). Esse livro é uma introdução aos textos de Nag Hammadi para o público leigo e é, desde o seu lançamento, um best-seller. Nos EUA, ganhou os prêmios National Book Critics Circle Award e National Book
Livraria Saraiva
Award e foi escolhido pela Modern Library como um dos 100 melhores livros do século XX. No livro ela argumenta que a Igreja cristã foi fundada em uma sociedade que expunha numeráveis pontos-de-vistas contraditórios. O gnosticismo era um movimento não muito coerente e havia algumas áreas de desacordo entre as diferentes facções. O gnosticismo atraiu as mulheres em particular devido à sua perspectiva igualitária que permitia a sua participação em rituais sagrados."

Eis a entrevista de Elaine Pagels a Bill Moyers :

Pagels : Obrigado.

MOYERS :. O que é o Evangelho secreto de Tomé ?

Pagels : O Evangelho de Tomé é um texto bastante surpreendente. Consiste em apenas ... 

Editora Objetiva
Ele começa com as palavras: " Estas são as palavras secretas que o Jesus vivo falou e que Tomé anotou. "E todo ele são palavras de Jesus. Mas, diferentemente dos evangelhos do Novo Testamento, como o de Mateus e Lucas, este não traz um ensinamento público, mas sim ditos secretos. Fala sobre um Jesus que fala sobre cada um de nós a partir da luz primordial de Deus. Ele fala sobre todos os seres que vêm de Deus. O Evangelho de João do novo testamento diz que Jesus é a luz . Tudo se refere a Jesus . Jesus ensina que você tem que acreditar em Jesus, que você tem que seguir a Jesus. Mas o Evangelho de Tomé não é sobre isso .

Aqui Jesus fala sobre um caminho. E diz: "Você tem que encontrar o seu caminho. Você pode encontrar a luz divina dentro de si mesmo. Dentro de todos. Dentro de todo o ser."

MOYERS : Porque esse evangelho foi por tanto tempo desconhecido ? Não detectado ? Despercebido ?

Pagels : Bem, este evangelho tem um mistério por trás dele. Porque, aparentemente, este e muitos outros estavam circulando entre os cristãos logo no início do movimento. Mas ele desagradou muito a algumas autoridades da Igreja. Então, um dos arcebispos, no ano 367, escreveu uma lista para os monges no Egito e disse: "Livrem-se de todos aqueles livros secretos ilegítimos de que vocês tanto gostam. E mantenha só esses. " E aqueles que ele disse para manter são os que chamamos de Novo Testamento.

Todos os outros livros, incluindo o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe ,o Evangelho de Maria Madalena e muitos outros, foram queimados, jogado fora, e assim por diante. Mas alguém desobedeceu ao arcebispo. E em vez de queimá-los enterrou-os aonde eles foram encontrados em 1945.

MOYERS: Então, você acha que o Evangelho de Tomé, que estava escondido por todos esses anos, pode muito bem ter sido escrito ... provavelmente foi escrito por alguém próximo a Jesus, ou que conhecia alguém próximo a Jesus?

Pagels: Nós não sabemos quem escreveu este Evangelho assim como não sabemos quem escreveu qualquer um dos outros, na verdade. Eles são todos atribuídos a discípulos. Mas nós não sabemos.

Não é improvável - ou, dito de outra forma - é provável que alguns dos ditos aqui sejam palavras que Jesus falou. Na verdade, muitos dos ditos são os mesmos que você vai encontrar no Evangelho de Mateus e Lucas, no Novo Testamento. Mas alguns deles são bastante diferentes. Eles não são simples. Eles são uma espécie de quebra-cabeças. São “koans”. São feitos para provocar um atrito interior.

MOYERS: 'Koan' - esse é um termo budista, não é?

Pagels: Sim, é um termo budista. Isso significa que não é um ditado claro. Mas é uma frase enigmática. É poderoso. Nestas palavras, Jesus diz coisas como: "Se você manifestar o que está dentro de você, o que você manifestar o salvará. Se você não manifestar o que está dentro de você, o que você não manifestar o destruirá."

Então quando eu ouvir esse dito, eu penso: "Eu não tenho que acreditar nisso. Eu só sei que isso é verdade.” E isso pode ser verdade a nível psicológico. E eu acho também é verdade em um nível espiritual. Que nós precisamos encontrar os recursos espirituais dentro de nós mesmos. E de acordo com esse tipo de fonte, a razão que podemos encontrar dentro de nós mesmos, é a que virá a partir dessa fonte.

MOYERS: Por que o Evangelho de Tomé não é um texto oficial da Bíblia assim como Mateus, Marcos, Lucas e João?

Pagels: Isso faria a Bíblia muito mais interessante. Mas acho que as pessoas como o arcebispo que chamou os livros como estes Evangelhos secretos de ilegítimos, achavam que era muito perigoso dizer: "Bem, você pode sair e encontrar Deus em seu próprio interior. Você não precisa das crenças que a Igreja estabelece. Você não precisa do Bispo, você não precisa ir para a igreja. Você não precisa ser batizado.” Isso quer dizer que você pode tornar a igreja menos importante. E não seria um arcebispo que teria tal clareza de disposição.

MOYERS: Então, isso foi em que ano?

Pagels: Foi o ano 367 depois que a igreja se tornou a religião do Império Romano. Era o início do estabelecimento do cristianismo imperial.

MOYERS: E ...

Pagels: E foi nesse ponto que o Novo Testamento como o conhecemos foi moldado. Então, este livro é sobre o cristianismo como o conhecemos foi configurado. É uma tradição bastante notável. Mas há muito coisa que foi deixada de fora. E é isso sobre o que eu estou escrevendo.

MOYERS: O que isso lhe diz este Evangelho de Tomé, sobre a história do movimento cristão?

Pagels: O que muito me aqui fascina é quanto o cristianismo se transformou em um conjunto de crenças como, se as pessoas dizem: "Você é cristão?" E se, em seguida, você diz: "Bem, o que você quer dizer com isso?" E então eles usualmente costumam dizer coisas tal como: "Bem, você acredita que Jesus é ... sei lá ... o filho de Deus."

***
Seguem alguns comentários: 


Comentário de Euclides Bagatoli:  Budha viveu há seis mil anos e nós conhecemos seus ensinamentos e os praticamos; Sócrates e Platão - sabemos dos seus ensinamentos, os quais não diferem dos de Budha, em essência; Sabemos, de outros modernos - Ramana, Balsekar, Osho e tantos outros, e praticamos seus ensinamentos, que são direcionados ao despertar do ser humano. 

Sabemos, inclusive, de Maomé e conhecemos os de Jesus. Pergunto, o que é que a Igreja Católica ensina no sentido da auto salvação? Talvez seja por esta razão que aguardam o retorno de Jesus - as pessoas estão com sede da verdade. Poderiam matá-la, buscando na presença, na fala gravada em vídeo e nas palavras escritas dos Mestres a que nos referimos ou em outros, mas a Igreja os refuta, taxando-os disso e daquilo.


Comentario - Paulo Azambuja: Pois é Euclides. Como a Dra Pagels aborda nessa entrevista, a partir do sec. IV Constatino, o Imperador Romano, incorporou e oficializou a crença cristã e contemplou dentre os vário grupos cristãos pre existentes (muitos deles gnósticos como os de Valentino) aqueles grupos ortodoxos como os sucessores das idéias do bispo de Lyon, Irineu, e outros afins e assim fundou o "cristianismo imperial" que hoje, já moribundo, ainda é mais representado pela igreja romana. 

Portanto quando hoje falamos, por exemplo: "Eu sou Cristão", essa afirmação esta completamente comprometida com as graves deformações dai decorrentes, embora o gnosticismo historicamente já existisse antes da igreja imperial romana. 

Foi por isso que quando os Cátaros reviveram no sec. XIV aquele sagrado cristianismo original acabaram massacrados pelos exércitos do Papa. 

O que ocorre no entanto é que, poucos sabem, o cristianismo original tem um tesouro de grandes VERDADES exatamente apropriadas para essa nossa transição atual, pois foi para preparar a humanidade para essa transição apocalítica que Cristo se manifestou em Jesus. E é nos inteirando desses tesouros, que estavam em sua maioria perdidos e que foram recuperados com o achado dos Evangelhos gnósticos em 1945 numa caverna no Egito, que redescubriremos essa Gnósis Cristã de origem e sua atualidade e propriedade na nossa situação do mundo atual.

Comentario - Paulo Azambuja: Para os que leram o texto acima gostaria de fazer uma ressalva ao que Pagels diz sobre o Ev. de Joao: "O Evangelho de João do novo testamento diz que Jesus é a luz. Tudo se refere a Jesus. Jesus ensina que você tem que acreditar em Jesus, que você tem que seguir a Jesus." 

Na verdade é um pouco sutil essa questão de Jesus SER a LUZ o que em última instância remete para uma confusão generalizada Sobre Jesus-Cristo. Cristo é a LUZ! Não Jesus! Jesus é o HOMEM QUE SE CRISTIFICA, isto é que MANIFESTA, REFLETE limpidamente a luz que não é dele mas de CRISTO ao qual ele se integrou. "Porque me chamas de "bom mestre" não há um bom sequer". "Vocês podem fazer mais que eu".

Veja também neste blog:

O EVANGELHO GNÓSTICO DE TOMÉ

O Filho do Homem se TornaFilho de Deus